Postado em 18 de Junho de 2019 às 16h21

André Cechinel

Voz do Autor (36)

Esta semana convidamos André Cechinel para falarmos sobre a sua obra O referente errante: The Waste Land e sua Máquina de Teses. Veja, a seguir, a entrevista com o autor acerca da obra.

Quais são suas áreas de atuação profissional?

Sou professor da Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC) e atuo no curso de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Educação, Mestrado e Doutorado. Nas minhas atividades de orientação e pesquisa, relaciono-me fundamentalmente com três temas: a obra do escritor angloamericano T. S. Eliot e sua relação com o modernismo brasileiro e de língua inglesa; a relação entre literatura, ensino e a ideia de formação humana ou integral; por fim, dedico-me à atividade tradutória, tanto do ponto de vista prático, tendo já traduzido autores como Linda Hutcheon e Judith Butler para o português, quanto teórico, atuando como professor também no Programa de Pós-Graduação em Tradução (PGET) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Quais foram seus objetivos ao criar o livro, e como você espera que as pessoas o leiam?

Em poucas palavras, o livro “O referente errante: The Waste Land e sua Máquina de Teses” busca confrontar as leituras mais evidentes do poema, justamente aquelas que definem a recepção de Eliot até hoje no Brasil. O estudo propõe-se a identificar uma estrutura mais profunda da obra costumeiramente ignorada ou tratada apenas superficialmente pela crítica, uma estrutura que seria formada pela articulação problemática entre os versos “em si” e uma leitura crítica autoral presente na própria maquinaria do poema – refiro-me às célebres “Notas para The Waste Land”, um conjunto de observações que Eliot inseriu como seção extra e que “explicam” o funcionamento dos versos. The Waste Land revela ser, com esse jogo, uma obra que se reconfigura a todo instante sem deixar de se apresentar como “totalidade”.

Você já produziu outros trabalhos com essa temática ou afins?

O livro é resultado de anos de estudo sobre a obra de Eliot. Como apêndice ao livro, aliás, inclui um ensaio que, à luz dos escritos filosóficos iniciais do poeta, pretende discutir o conceito de tradição tal como por ele inicialmente concebido. Em outras palavras, o texto demonstra que Eliot, longe de interpretar a tradição como algo estanque ou definitivo, elabora o conceito como um termo operacional cuja capacidade de se desconstruir chama a atenção em particular. A imagem de Eliot que ficou para os manuais revela, ainda hoje, um problema: os escritos filosóficos iniciais, sua tese de doutorado e seus poemas – pelo menos até a conversão ao anglo-catolicismo, em 1927 – testemunham contra qualquer noção de tradição como fixidez. Isso, para a teorização do conceito ao longo do século XX, que tem em Eliot uma espécie de espelho invertido, constitui uma ferida: tradição, para o poeta, é mudança, novidade. Resta saber como as diferentes formas de desconstrução do cânone lidariam com esse novo Eliot, agora retirado da condição de mero espantalho.

Qual a contribuição que o livro traz para os leitores e para a complexa sociedade em que vivemos?

Para um livro vinculado à interpretação de uma obra clássica da literatura mundial, pensar em uma aplicação para a sociedade hoje talvez seja uma violência epistêmica. Poderia aqui insistir no valor do “inútil” como contraponto à nossa sociedade do espetáculo e da utilidade. A leitura de poesia permanece, por enquanto, como uma “inutilidade” radical no seio da sociedade do uso, do controle e do consumo. De todo modo, insistiria no fato que a minha leitura de The Waste Land expõe uma estrutura mais profunda do poema que de certo modo controla silenciosamente as nossas operações críticas sem que o percebamos. Digamos, então, que o livro é um convite à atenção e a uma interpretação mais atenta voltada às estruturas a partir das quais operamos e que, sem uma autoavaliação constante, crítica e radical, tendem a nos fazer falhar, mais uma vez.

Quando surgiu este interesse em estudar sobre T. S. Eliot?

Devo muito ao professor Sérgio Medeiros da UFSC, meu orientador, que me permitiu aprofundar a leitura de Eliot durante a graduação na UFSC, há duas décadas. Minha paixão pelos poemas de Eliot começou cedo e, como de praxe, pela leitura de “A canção de amor de J. Alfred Prufrock”. Quem estuda literatura e vê o mundo em pedaços, como quase todo adolescente, não tarda a se aproximar dos fragmentos de Eliot, como tentativa de “com fragmentos tais escorar as ruínas”.

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