Postado em 04 de Julho de 2016 às 16h23

Fernanda Sánchez

Voz do Autor (36)
Obra destaca a mercantilização das cidades e o empresariamento das cidades dentro dos processos da reestruturação urbana capitalista. Autora também discute como determinados agentes e centros de difusão internacional vendem seus ideários e modelos que circulam num mercado mundial.

Veja, a seguir, uma entrevista com a autora acerca da obra.


Quais são suas áreas de atuação?
Sou professora da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense. Trabalho com docência e pesquisa na UFF (Niterói) e em projetos inter-institucionais junto ao Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da UFRJ (Rio de Janeiro). As áreas de pesquisa, atualmente, são: modelos emergentes de planejamento urbano; globalização e projetos de renovação urbana; cultura, política e marketing de cidades.

De onde surgiu a motivação para escrever seus livros?
Sempre busquei desenvolver a prática de exposição e debate público das ideias no ambiente universitário e em atividades de extensão junto a lideranças políticas e sociais. Esta prática proporcionou a oportunidade de repensar sempre os textos e artigos produzidos, absorvendo as diversas contribuições e tecendo elos interessantes com as pessoas ligadas às práticas da gestão urbana e à definição das políticas urbanas. Há cerca de dez anos, quando comecei a escrever com maior frequência artigos que traziam um questionamento acerca dos chamados mitos do urbanismo de Curitiba, o meu trabalho teve uma acolhida marcante na esfera nacional da pesquisa urbana, repercutindo também em outros trabalhos e publicações que se sucederam, no âmbito da sociologia, da ciência política, da história. Também destaco o trabalho coletivo de pesquisa, no âmbito da UFRJ (no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional) e agora também na UFF (onde temos um grupo de pesquisa acerca de “grandes projetos de desenvolvimento urbano”), buscamos constituir uma referência do pensamento e produção crítica acerca dos modelos e ideários difundidos nos anos 1990 e na virada de século, notadamente no que se refere ao planejamento estratégico de cidades, aos chamados “projetos estratégicos de renovação urbana” e ao marketing de cidades.

Quais são suas outras publicações?
Venho publicando artigos, já apresentados em congressos, que fazem parte de livros e coletâneas nacionais como “Política e Cultura: visões do passado e perspectivas contemporâneas” (Hucitec, 1996); “A Duração das Cidades: sustentabilidade e risco nas políticas urbanas” (organizado por Acselrad, Editora DP&A, 2001), ou em revistas e publicações especializadas, como os “Cadernos IPPUR-UFRJ” ou a “Revista de Estudos Urbanos e Regionais” (da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa Urbana e Regional). Participei de uma publicação internacional intitulada “La ciudad, escenario de comunicación” (Flacso, 1999) e publiquei, no ano de 1997, o livro “Cidade Espetáculo: Política, Planejamento e City Marketing” (Editora Palavra).

Fale-nos um pouco da obra “A reinvenção das cidades”.
O assunto em torno do qual gira o livro é a mercantilização das cidades, o empresariamento das cidades dentro dos processos da reestruturação urbana capitalista. Procuro discutir como determinados agentes e centros de difusão internacional vendem seus ideários e modelos que circulam num mercado mundial. Eles transformam uma realidade diversa, complexa e contraditória, em mercadoria desejada e acessível aos potenciais compradores. Aqui, como para as mercadorias em geral, o marketing se encarregará de produzir imagens-sínteses. Mas esta redução sintética da cidade a uma imagem mercadológica constitui um ato de violência simbólica que desconhece ou apaga as múltiplas outras imagens e representações possíveis da cidade. A construção dos consensos, em nome da suposta unidade identitária, constitui, de fato, a recusa à existência da diversidade que funda a própria existência da cidade. O consenso passa a ser uma condição do sucesso mercadológico. Nos marcos do neoliberalismo, as experiências urbanas alçadas à condição de “modelos” nos falam muito mais do mercado que da vida urbana, muito mais dos negócios que dos cidadãos, estes reduzidos a consumidores da mercadoria cidade. Em tempos de ressurgimento do debate urbano no Brasil e de redefinição de projetos na esfera nacional, este livro propõe uma reflexão que se situa na contracorrente da adesão subordinada a agendas e modelos dominantes.

O que é o “city marketing”?
A radicalização da cidade como mercadoria, a cidade vendida enquanto produto no mercado mundial, tem no “city marketing” seu principal instrumento. Em muitas cidades, este instrumento passa a ser central nos processos de adaptação do espaço das cidades aos tempos e exigências da globalização da economia. É por meio do “city marketing” que são promovidos, ou vendidos, certos modelos de transformação urbana, não apenas na escala local, mas, ao mesmo tempo, nas escalas nacional e global. É também por meio deste instrumento que as coalizões empresariais junto aos governos locais promovem uma ideia de cidadania que produz uma imagem consensuada da cidade em processo de transformação, dificultando leituras divergentes, ideários e projetos alternativos.

Por que parece que para entender as cidades hoje, temos que mobilizar ferramentas de muitas áreas, ao mesmo tempo?
Penso que as contribuições das diversas áreas das ciências humanas são fundamentais para a reflexão e compreensão das sociedades urbanas contemporâneas. Nessa posição de diálogo transdisciplinar há uma crítica ao pensamento urbanístico tecnocrático e autocentrado, que por muito tempo foi tão caro aos arquitetos.

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