André Cechinel e Rafael Rodrigo Mueller

Obra Formação humana na sociedade do espetáculo, publicada pela Argos, induz ao questionamento de aspectos fundamentais do nosso mundo educacional

Em 25/09/2020 15:58

Entrevista por Editora Argos

André Cechinel e Rafael Rodrigo Mueller

Esta semana convidamos André Cechinel e Rafael Rodrigo Mueller para falarmos sobre a sua obra Formação humana na sociedade do espetáculo. Veja, a seguir, a entrevista com os organizadores acerca da obra.

 

1. Quais são suas áreas de atuação?

 

Nos últimos anos, temos buscado discutir a relação entre a ideia de Educação ou formação humana e aquilo que Guy Debord chamou, em 1967, de “sociedade do espetáculo”, as características fundamentais por ele apontadas apenas se acentuaram no presente. Nossas reflexões sobre Educação voltam-se, de modo geral, para as atualizações do espetáculo no âmbito educacional hoje.

 

2. Vocês já produziram outros trabalhos com esta temática ou afins?

 

Temos artigos produzidos e publicados em parceria que tratam de uma concepção de formação humana que se relaciona, em termos críticos, com aquela que tratamos em nosso capítulo na presente obra. Seguem eles:

 

CECHINEL, A.; MUELLER, R. R. Reflexões sobre a câmara mirim e o brinquedo improfanável. Perspectiva, Florianópolis, v. 35, n. 4, p. 1182-1195, out./dez. 2017. DOI: https://doi.org/10.5007/2175-795X.2017v35n4p1182.

 

MUELLER, R. R.; CECHINEL, A. A privatização da educação brasileira e a BNCC do Ensino Médio: parceria para as competências socioemocionais. Educação, Santa Maria, v. 45, p. 1-22, jan./dez. 2020. DOI: https://doi.org/10.5902/1984644435680.

 

Gostaríamos de ressaltar, também, o livro que traduzimos em 2016 sobre a obra do pedagogo italiano Lorenzo Milani, que introduz uma perspectiva crítica e não competitiva para a Educação: Lorenzo Milani, a escola de Barbiana e a luta por justiça social, de P. Mayo, F. Batini e A. Surian (Edufsc; Ediunesc).

 

3. Partindo para o processo criativo do livro, quais metodologias foram utilizadas para elaboração da obra?

 

O livro é fruto de nossas reflexões feitas a partir da disciplina “Formação humana na Sociedade do Espetáculo”, que ofertamos no PPGE/UNESC, assim como das leituras e debates realizados junto ao nosso grupo de pesquisa “Núcleo de Estudos sobre Formação Humana (FORMA)”. O desejo foi desde o princípio discutir os impasses resultantes do embate entre um conceito forte de educação e o contexto de crescente espetacularização dos próprios espaços formativos.

 

4. Em relação aos seus objetivos organizando o livro, como vocês esperam que os leitores recebam a obra?

 

Esperamos fomentar a reflexão crítica acerca da relação entre Educação e Formação Humana, algo que não se manifesta inteiramente no âmbito das Ciências Humanas, tampouco na própria área da Educação.

 

5. O que vocês consideram como sua contribuição à área?

 

Certamente seria a possibilidade de aprofundar o debate sobre a pertinência do movimento de maio de 1968, em termos políticos e sociais, para a compreensão do atual momento, além da relevância da obra Sociedade do espetáculo após 50 anos de seu lançamento.

 

6. Quais foram as maiores dificuldades que vocês enfrentaram nesta área de campo de pesquisa?

 

Autores e pesquisadores dispostos a discutir o conceito de “sociedade do espetáculo” enquanto uma chave de interpretação da realidade contemporânea sem incorrer em uma percepção limitada de que tal fenômeno se restringe somente à lógica midiática, à mera midiatização das relações sociais.

 

7. Para vocês, qual o verdadeiro propósito da formação humana e como podemos desenvolvê-la para além do processo político e formativo que enfrentamos atualmente?

 

O conceito de formação humana que defendemos não se limita ao processo formal de educação e escolarização, mas vincula-se a uma formação profunda nas dimensões científica, artística, filosófica e técnica, ou seja, a uma imersão mais ampla na produção cultural humana. Tal condição, na dimensão situacionista a qual Debord se vincula, se daria por uma vivência intensa de seu cotidiano – as ruas, a cidade, o espaço geográfico – e pela recusa da vida orientada pelo fetichismo da mercadoria característico do capitalismo contemporâneo. Nesse sentido, categorias como deriva e détournement, centrais no movimento situacionista, são imprescindíveis tanto para a crítica radical da educação enquanto mercadoria – dimensão na realidade “deformativa” da educação – quanto para a afirmação de uma formação na qual o ser humano de fato seja o centro de tal processo.


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